top of page
  • Black Facebook Icon
  • Black Instagram Icon

AS NOVAS TECNOLOGIAS NO ENSINO
por Francisco Vilhena

É importante referir a pertinência do uso ponderado e refletido das novas tecnologias, por docentes formados em continuidade, segundo orientações concretas, que visem defender os melhores interesses dos alunos e complementar uma educação integral baseada na interação humana. As novas tecnologias devem ser uma ferramenta útil ao serviço da educação, prioridade maior.

No primeiro volume da obra De Institutione Oratoria, Quintiliano, pedagogo do século I, afirmou: “o gosto pelo jogo entre as crianças, não me chocaria, é este um sinal de vivacidade e nem poderia esperar que uma criança triste e sempre abatida mostre espírito ativo para o estudo. Há, pois, para aguçar a inteligência das crianças, alguns jogos que não são inúteis, desde que se rivalizem a propor, alternadamente, pequenos problemas de toda a espécie.” (Vol.I  cap.3)  

 

Desde sempre, uma aprendizagem mais lúdica foi vista como uma inovação bem-sucedida no campo da pedagogia, tornando o processo educativo uma experiência envolvente e eficaz. Ao introduzir elementos de diversão e entretenimento nos ambientes educativos, são alcançados benefícios face às práticas mais tradicionais. A atração pelo gosto, pelo estímulo, pelo desafiante, faz com que, sem dar conta, os alunos aprendam de forma mais eficaz. Esta prática é tanto mais perceptível quanto mais observamos os anos iniciais da aprendizagem de uma criança. Mesmo antes de entrar na escola, as primeiras aprendizagens aparecem sob a forma de jogo, de canção. Jogos educativos, simulações e atividades interativas podem ser um terreno fértil para a exploração e para a experiência, permitindo que os alunos absorvam os conceitos de maneira mais eficiente. Um ambiente mais descontraído e atrativo promove uma maior retenção do conhecimento, na medida em que os alunos se sentem mais motivados e entusiasmados para participar ativamente do processo.

Uma aprendizagem mais ativa estimula o desenvolvimento cognitivo, social e emocional, estimulando o pensamento crítico, a tomada de decisões, o trabalho colaborativo e a comunicação entre os pares. Os paralelos feitos entre a ambientes de jogo, de simulação, e situações da vida real, são uma constante, pelo que, o aluno através de uma aprendizagem mais ativa adquire competências que pode transportar para além da sala de aula. A título de exemplo, a aprendizagem de conceitos relacionados com os mercados de concorrência imperfeita, nomeadamente o monopólio, pode ser muito mais profícua se partir da utilização do conhecido jogo com o mesmo nome.

Outro aspeto significativo relacionado com as aprendizagens ativas é que, o aluno, ao envolver-se no processo de aprendizagem, desenvolve uma ligação mais próxima com a aprendizagem e, de certa forma afetiva, facilitadora da interiorização dos conceitos, tornando a aprendizagem mais duradoura, ou seja, as memórias criadas perduram ao longo do tempo. Certamente, enquanto aluno ou professor, todos recordamos experiências que atestam esta afirmação, seja porque colocámos muito de nós no processo de aprendizagem e com o estímulo da criatividade desenvolvemos trabalhos completamente “fora da caixa”, seja porque o professor para nos mostrar que um produto mais caro e com uma marca mais reconhecida nem sempre é o produto melhor, organizou dentro de sala uma prova de degustação às cegas com Coca-cola, seja porque aprendemos o compasso adequado às manobras de Suporte Básico de Vida ao som de Stayin' Alive dos Bee Gees, ou porque nunca nos esquecemos de uma aprendizagem transmitida durante uma visita de estudo.

A necessidade de aguçar a inteligência das crianças, referida por Quintiliano, pode ser transportada para o mundo atual em que, desde idade precoce, as crianças são estimuladas, devemos dizer superestimuladas, no uso da tecnologia. Uma larga maioria dos recursos didáticos utilizados na aprendizagem faz hoje recurso de tecnologia, as crianças são expostas a ecrãs interativos de forma precoce, e os jovens e adultos apresentam uma forte dependência das novas tecnologias.

Num mundo que emana tecnologia seria impossível pensar o ensino apartado dessa realidade na construção dos seus currículos, uma vez que facilita e amplia o acesso ao conhecimento, democratizando a educação, dando mais oportunidades a quem menos recursos tem. Ao mesmo tempo abre a porta à adoção de metodologias mais inovadoras, à criação de novos materiais didáticos interativos que possam responder ao interesse dos alunos tornando o processo de aprendizagem numa experiência envolvente, ao invés de uma ação passiva. O tempo e o ritmo da aprendizagem são também um dos benefícios apontados para o uso de tecnologia, uma vez que os alunos têm características e ritmos diferentes, então podem ser criadas respostas adaptadas às características dos alunos, tornando a educação mais inclusiva. O uso da tecnologia também é benéfico na facilitação do trabalho desenvolvido, tornando o processo de aprendizagem mais eficiente e preparando o aluno para competências exigidas num futuro enquanto trabalhador.

Apesar das vantagens, muitas são as reservas face à forma como as tecnologias têm sido incorporadas no ensino. Alguns países francamente “pró” novas tecnologias no ensino reverteram recentemente essas políticas e isso deve-se à falta de evidências sólidas e imparciais do verdadeiro impacto do uso da tecnologia educacional. Segundo o “Global education monitoring report, 2023: technology in education: a tool on whose terms?” preparado pela UNESCO, a tecnologia evolui mais rápido do que é possível avaliá-la sendo que os produtos de tecnologia ao serviço da educação mudam, em média, a cada 36 meses. Este relatório também conclui que a maioria dos estudos efetuados sobre os produtos educativos e que atestam a sua eficácia, são produzidos por quem os vende. A tecnologia pode ser uma salvação para a educação de milhões, mas acaba por excluir da sua utilização muito mais pessoas, pois muitos alunos não têm hipótese de utilizar tecnologias digitais nas suas práticas escolares. O ritmo acelerado das mudanças tem pressionado fortemente a adaptação dos sistemas, mas esta pressão nem sempre é benéfica pois a definição das competências digitais a priorizar é realizada maioritariamente pelo setor empresarial. Também os professores se sentem muitas vezes pouco preparados e pouco confiantes para dar aulas com recurso às tecnologias. A facilidade no acesso às novas tecnologias fez com que o conteúdo digital disponível aumentasse significativamente, mas sem o crivo da qualidade ou da diversidade.

Como refere o relatório da UNESCO, compra-se tecnologia, muitas vezes, para “tapar um buraco”, sem olhar para os custos a longo prazo para os orçamentos de cada país, sem olhar para o custo a longo prazo para o bem-estar das crianças, e nos custos a longo prazo para o planeta. Refere ainda que a maioria das discussões sobre as tecnologias na educação têm o foco na tecnologia e não na educação. De um ponto de vista dos docentes a tecnologia tem provocado um grande impacto no desenvolvimento da sua profissão ao facilitar o acesso a recursos, a partilha de materiais, a aprendizagem à distância e o seguimento do trabalho autónomo desenvolvido pelos alunos. Em países como Portugal onde aproximadamente metade dos docentes portugueses têm mais de 50 anos, segundo dados do EDUSTAT - Observatório da Educação, plataforma desenvolvida pelo EDULOG da Fundação Belmiro de Azevedo, os obstáculos ainda são muitos na relação entre muitos professores e o uso das tecnologias na educação. Alguns professores carecem de formação para utilizar os dispositivos digitais de forma eficaz, principalmente os professores mais velhos que podem ter dificuldades em acompanhar as rápidas mudanças tecnológicas.

O relatório da UNESCO conclui que o uso da tecnologia na educação deverá efetivamente acrescentar valor, apoiando e fortalecendo os sistemas educativos e deve estar alinhado com os objetivos de aprendizagem, ou seja, devem ser reformulados os currículos para que sejam ensinadas as competências que comprovadamente melhoram a aprendizagem e são adequadas aos diversos contextos, não assumindo que a pedagogia é imutável nem que a tecnologia digital é adequada a todo o tipo de aprendizagem. Conclui também que a tecnologia deve mitigar as desigualdades no acesso à educação em vez de as acentuar pela facilidade de acesso dos alunos mais privilegiados. Para isso devem os governos apoiar os mais marginalizados e garantir que as escolas têm recursos para um acesso inclusivo. A diversidade de produtos e plataformas tecnológicas na educação é acentuada e por isso, o relatório aponta como necessário serem estabelecidos organismos competentes e independentes para avaliar a qualidade e os custos dos produtos para aumentar a eficiência nas escolhas. Não sendo um projeto de curto prazo, o uso de tecnologia na educação deve ser construído segundo um pensamento de sustentabilidade e não responder apenas a questões económicas conjunturais e interesses particulares.

Em suma, é importante referir a pertinência do uso ponderado e refletido das novas tecnologias, por docentes formados em continuidade, segundo orientações concretas, que visem defender os melhores interesses dos alunos e complementar uma educação integral baseada na interação humana. As novas tecnologias devem ser uma ferramenta útil ao serviço da educação, prioridade maior.

 

Francisco Vilhena

© 2024 by Estudo Inflacionado. Powered and secured by Wix

bottom of page