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A
MOTIVAÇÃO

por Susana Duarte

Enquanto professora ambiciono chegar a todos os alunos identificando e entendendo as particularidades e dificuldades de cada um, mas nem sempre é fácil. Há alunos que não se sentem muito confortáveis a expressar e a deixar transparecer as suas fragilidades. Assim sendo, mais uma vez, cabe ao professor encontrar estratégias para ultrapassar estas dificuldades levando o aluno a confiar no professor, trazendo-o para o “palco” do processo de ensino-aprendizagem e motivando-o.

Num mundo em contínua mudança, os professores são constantemente confrontados com novos desafios. De acordo com os princípios, os valores e as áreas de competência preconizados no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO), é necessário efetuar “alterações de práticas pedagógicas e didáticas de forma a adequar a globalidade da ação educativa às finalidades do perfil de competências dos alunos” (Martins et al., 2017, p. 31). Concomitantemente é fundamental não esquecer o Decreto-Lei n.º 55/2018 que pretende promover o sucesso educativo e a igualdade de oportunidades.

Antes de mais, gostaria de destacar a importância e a dificuldade que o professor sente em manter os alunos motivados, seja ela qual for a disciplina ou unidade curricular. Perante todas as tarefas inerentes ao trabalho, enquanto professora, aquela que tenho sempre presente é a de manter os alunos motivados, por considerar que ter alunos motivados é fundamental para alcançar bons resultados. Por outro lado, perante todas as variáveis que “circulam”, em simultâneo, dentro e fora de uma sala de aula, existe uma dificuldade acrescida em entender como manter os alunos motivados.

Enquanto professora ambiciono chegar a todos os alunos identificando e entendendo as particularidades e dificuldades de cada um, mas nem sempre é fácil. Há alunos que não se sentem muito confortáveis a expressar e a deixar transparecer as suas fragilidades. Assim sendo, mais uma vez, cabe ao professor encontrar estratégias para ultrapassar estas dificuldades levando o aluno a confiar no professor, trazendo-o para o “palco” do processo de ensino-aprendizagem e motivando-o.

Sou professora há mais de 14 anos e desempenho a minha profissão, que tanto adoro, com empenho e dedicação para com os meus alunos, mas sinto constantemente a preocupação com a motivação. Como posso motivar um aluno que não gosta de Economia? Escolheu o curso de Economia por exclusão de partes. Como posso motivar um aluno que tem hiperatividade e défice de atenção a prejudicar os seus resultados? Cada vez que lhe entrego um teste fica com um ar triste por não conseguir mais... Como posso motivar um aluno que se esforça imenso para alcançar bons resultados e depois só consegue negativas? Os nervos são tantos, que assim que inicia o teste nem as questões cuja matéria está clara na sua mente consegue fazer. Como posso motivar um aluno que foi obrigado, pelos pais, a inscrever-se no curso de Economia em vez de ir para Artes? Passa grande parte das aulas a fazer caricaturas dos colegas e professores, fazendo uma exposição de arte no painel de cortiça que está no fundo da sala. Estas são algumas das questões que me assombram e cada uma delas tem um nome de aluno associado.

O tema da motivação tem sido amplamente estudado, com base em diferentes contextos e de acordo com várias perspetivas. Neste momento, aquele que apresenta relevância é a motivação no contexto de Educação, porque “a excelência do processo de aprendizagem e ensino só será possível se a motivação de alunos e professores for incentivada” (Pereira, 2013, p. 446).

Qualquer dicionário de língua portuguesa define a motivação como o ato de motivar, de despertar o interesse para algo ou um processo que desencadeia uma atividade de forma consciente. Segundo Pereira (2013, p. 448) a “motivação é definida como um estado interno que activa, direciona e mantém comportamentos”.

De acordo com Dolezal et al. (2003, citado por Arends, 2008) da observação de salas de aula e de professores experientes permitiu dividir os métodos de ensino em duas categorias: uma que potencia a motivação e outra que diminui a motivação como a seguir se apresentam.

 

Métodos que potenciam a motivação:

  • Responsabilizar os alunos;

  • Passar trabalhos de casa apropriados;

  • Verificar a compreensão;

  • Ambiente positivo dentro da sala de aula;

  • Ter objetivos e expectativas claros;

  • Utilizar a aprendizagem cooperativa;

  • Passar aos alunos tarefas mais difíceis, que estes podem fazer;

  • Monitorizar o trabalho dos alunos;

  • Encorajar os alunos de forma positiva;

  • Proporcionar instrução de estratégias;

  • Valorizar os alunos;

  • Estimular o pensamento cognitivo.

 

Métodos que diminuem a motivação:

  • Atribuição de competências;

  • Encorajar a competitividade;

  • Proporcionar apoio ineficaz;

  • Falta de monitorização do trabalho dos alunos;

  • Atribuir tarefas de baixa dificuldade;

  • Ter uma planificação pobre/incompleta;

  • Ter um ritmo demasiado lento;

  • Ambiente negativo dentro da sala de aula;

  • Utilizar métodos de ensino pouco inspirados;

  • Utilizar uma gestão negativa da sala de aula;

  • Falhar no estabelecimento de relações;

  • Utilizar avisos e punições públicos.

 

Conforme referido anteriormente, sempre gostei de temas relacionados com a psicologia e, enquanto professora, cada vez mais sinto a necessidade de entender como se processa o desenvolvimento cognitivo e socio emocional, bem como os fundamentos teóricos da aprendizagem, a fim de responder de uma forma mais adequada aos meus alunos durante o processo de ensino-aprendizagem. De acordo com Pereira (2013, p. 446), “[a] maior parte dos educadores concorda que para aprender os indivíduos deverão ser activados cognitiva, emocional e comportamentalmente nas actividades em que se envolvem”.

São diversas as teorias e perspetivas que se encontram relacionadas com o tema da motivação, como por exemplo: teorias comportamentais ou behavioristas, teorias humanistas, teorias cognitivistas ou teorias socioculturais. Cada uma delas tenta explicar e entender a motivação humana. De acordo com a teoria comportamentalista, ou behaviorista, entendemos que a motivação é influenciada pelas recompensas e incentivos externos que recebemos. Isto significa que quando somos recompensados de alguma forma após fazermos algo, ficamos motivados a repetir esse comportamento. Um exemplo prático desta teoria, em contexto escolar, acontece quando um aluno se compromete com uma boa nota no momento de avaliação servindo de incentivo e receber o diploma pode ser considerado uma recompensa (Pereira, 2013). “A aplicação dos incentivos tem como finalidade aumentar o interesse e motivação na sala de aula, bem como focalizar a atenção para comportamentos apropriados e eliminar comportamentos desadequados” (Bandura, 1997, citado por Pereira, 2013, p. 449).

 Por outro lado, a teoria humanista defende que a motivação vem de um desejo inato de crescimento pessoal e realização pessoal, ou seja, os alicerces desta teoria são as necessidades humanas da tradicional pirâmide de Maslow. Assim sendo, nós vamos à procura de satisfazer as necessidades mais elevadas, quando as necessidades inferiores já estiverem todas satisfeitas. Quando nos sentimos satisfeitos com as necessidades da base da pirâmide (necessidades de fisiológicas) vamos à procura da satisfação das necessidades seguintes (necessidades de segurança, necessidades de amor e afiliação e necessidades de estima) até chegarmos ao topo da pirâmide (necessidades de autorrealização).

No que diz respeito à teoria cognitivista, na opinião de Pereira (2013), o que serve de orientação são os processos cognitivos, ou seja, os pensamentos do estudante. “O interesse é particularmente focalizado na motivação intrínseca para a realização, nas atribuições, ou seja, percepções que os indivíduos têm acerca das causas do fracasso e sucesso, nomeadamente a percepção do próprio esforço e as crenças acerca do controlo que se pode ter sobre os acontecimentos” (Weiner, 2005; Tavares et al. 2007, citados por Pereira, 2013, p. 450). Por exemplo, se um aluno acreditar que um esforço adicional nos estudos o levará a melhores resultados, então ele vai sentir-se motivado para se dedicar aos estudos.

Por último, a teoria sociocultural destaca a influência do ambiente social e cultural na motivação. Segundo Pereira (2013, p. 450), “não se pode menosprezar a dimensão social e a necessidade de afiliação e de estabelecer relações interpessoais, desenvolver amizades, passar tempo com pares e amigos, bem como familiares”. Para além disso, revela-se igualmente importante “a vinculação aos pais e o desejo de ter uma relação positiva com os professores” (Pereira, 2013, p. 450). Apresentando um exemplo no contexto escolar, dentro da sala de aula, um aluno pode ser motivado pelo apoio e incentivo do professor, pelas expectativas da família ou até pelos padrões estabelecidos pela sociedade.

Importa salientar que estas teorias não são mutuamente exclusivas e que se podem aplicar em diferentes situações. Cada uma, de acordo com os seus alicerces, ajuda a entender o universo da motivação humana, levando a crer que existem várias coisas que nos podem ajudar a encontrar a motivação, para agir e ir à procura de formas para alcançar os nossos objetivos. Considerando tudo o que foi exposto sobre as diversas teorias, penso que consigo identificar um pouco de cada uma delas nas minhas aulas e na forma como me relaciono com os meus alunos, bem como no esforço que faço para os motivar em cada momento, perante os mais variados obstáculos.

Partindo deste princípio, o conhecimento das teorias cognitivas permite-me ajudar os alunos que têm doenças cognitivas e/ou a identificar eventuais problemas que os alunos possam sentir, nomeadamente, a necessidade de realizar o teste de avaliação em sala à parte e/ou ter direito a tempo extra, assim como a necessidade de acompanhamento psicológico. Considerando a teoria comportamentalista um forte incentivo para os alunos se sentirem motivados é a obtenção de um bom resultado no exame nacional de Economia A, pois a recompensa será a entrada no curso e na faculdade que o aluno pretende e logo na primeira fase. Para alcançar um bom resultado no exame nacional é fundamental que aproveitem bem as aulas durante os dois anos em que têm a disciplina de Economia A. De acordo com a teoria humanista a não satisfação das necessidades fisiológicas impede que o ser humano se sinta motivado a alcançar outro tipo de necessidades. Nas minhas aulas, consigo observar, logo no início do dia, que alguns alunos chegam às aulas com sono, o que os impede de estar com atenção e de se concentrar. Para além disso, alguns alunos quando têm necessidade de ir à casa de banho parece que ficam sem reação para mais nada e perdem a concentração nos conteúdos lecionados. Mais perto da hora do almoço, quando a fome aperta é outro fator que leva à desconcentração total. Por último, da teoria sociocultural observo vários alunos que se sentem motivados pelas expectativas da família.

Perante a diversidade, obstáculos e dificuldades é necessário direcionar o processo de ensino-aprendizagem a cada aluno, cada aluno apresenta as suas características e os seus conhecimentos adquiridos até ao momento que não podem ser ignorados. Por vezes tenho alunos que me questionam como é que consigo ter paciência para determinados colegas. Mas, na minha perspectiva, é esse um dos aspetos que distingue um bom professor de um professor que não se preocupa com a individualidade de cada aluno. De seguida, vou descrever um episódio que aconteceu comigo, neste ano letivo, a um mês de terminarem as aulas e que reflete a forma como tento motivar os meus alunos da melhor maneira que sei.

Normalmente, a meio do terceiro período os alunos começam a acusar o cansaço e estão prestes a desistir como se já não tivessem mais forças. Este ano letivo, uma das minhas turmas depois da entrega do primeiro teste estava quase a “atirar a toalha ao chão” e a desistir da “competição”. Era uma turma com alguns problemas de aproveitamento e no final de uma das minhas aulas falei um pouco com eles no sentido de os fazer ver que, naquele momento, não era a altura certa para arrumar os livros e os cadernos e entrar em “modo turismo” nas aulas. Disse-lhes que nunca desistia deles e que precisava que eles também não desistissem de Economia A e das disciplinas em geral, pois só faltava um mês para irem, efetivamente, de férias. Estou convencida que aqueles cinco minutos de atenção lhes deu motivação para continuar, pois a atitude da turma mudou nas aulas seguintes.

Nesta perspetiva, e na tentativa de colmatar o problema da motivação dos alunos podemos utilizar as metodologias ativas como forma de evitar as aulas totalmente expositivas e que os alunos consideram aborrecidas e desinteressantes. As metodologias ativas são baseadas em abordagens pedagógicas que colocam o aluno no centro do processo de ensino-aprendizagem, ou seja, o aluno é o protagonista. Apesar de parecer um método inovador, o apelo pelas metodologias ativas não é recente. Em 1926, Lev Vigotsky já defendia que “[já] é hora de colocar o aluno sobre suas próprias pernas, de fazê-lo andar e cair, sofrer dor e contusões e escolher a direção.” (Vigotsky, 2001, citado por Magalhães, 2018, p. 349). Para além de Lev Vigotsky, outros autores como Jean Piaget, John Dewey e Paulo Freire, já defendiam a necessidade de se ultrapassar as abordagens pedagógicas tradicionais, na tentativa de envolver o aluno e motivá-lo no processo de ensino-aprendizagem.

De acordo com a literatura analisada sobre as aprendizagens ativas Bonwell e Eison (1991, citado por Prince, 2004), concluem que este tipo de aprendizagem conduz a uma melhor atitude dos alunos e a melhorias no pensamento e na escrita dos alunos. Para além disso, corroboram a conclusão de outros autores de que a discussão, uma metodologia ativa, supera as tradicionais aulas expositivas na retenção dos conteúdos e motiva os alunos para um estudo mais aprofundado e a desenvolver as capacidades de pensamento.

Desde que sejam devidamente utilizadas, as metodologias ativas potenciam vários benefícios, nomeadamente: um maior nível de retenção do conhecimento, uma postura mais positiva em relação ao assunto proposto e o aumento da motivação do aluno no processo de aprendizagem (Michael, 2006, citado por Vendramin, 2018). Hoje em dia, no que diz respeito a metodologias ativas para dinamizar o processo de ensino-aprendizagem, os professores têm uma diversidade disponível à sua escolha.

A aprendizagem baseada em problemas (Problem Based Learning) conduz o aluno a explorar problemas desafiadores e devidamente contextualizados na busca de soluções, aplicando o seu conhecimento de uma forma mais prática. Este tipo de situação pode levar o aluno a aumentar a sua motivação intrínseca. Já a aprendizagem baseada em projetos (Project Based Learning) estimula a motivação dos alunos na medida em que explora projetos em contexto real e neste tipo de situações os alunos conseguem observar a aplicabilidade dos conteúdos que vão aprendendo.

No que diz respeito à sala de aula invertida (Flipped Classroom) é um modelo diferente que se destaca pela inversão da sala de aula. O aluno passa a ter acesso aos conteúdos em casa, através de recursos facultados pelo professor e na sala de aula faz exercícios práticos e tira dúvidas com o professor, consolidando assim o conhecimento e envolvendo-se ativamente no processo de ensino-aprendizagem. De acordo com Vigotsky, um bom professor cria um ambiente colaborativo, onde os alunos são estimulados a trabalhar em conjunto e a envolverem-se em discussões e atividades cooperativas. O professor é um facilitador da interação social entre os alunos, promovendo a aprendizagem através da interação com os pares.

A Gamificação pode ser uma metodologia ativa interessante para os alunos porque através de jogos, desafios, recompensas os alunos conseguem aprender de uma forma divertida e aumentar a motivação para a aprendizagem. A Gamificação vai ao encontro das ideias preconizadas pela teoria comportamentalista, onde a motivação é influenciada pelas recompensas e incentivos externos que recebemos.

Por outro lado, a metodologia Role-playing, segundo Craciun (2010) é uma forma agradável, interessante e motivadora de envolver o aluno nas atividades que vão ser apresentadas em sala de aula. O aluno é desafiado a colocar-se no papel de outra pessoa com determinadas características, normalmente, diferentes das do aluno que está a viver a experiência. Para além disso, um aluno que realiza este tipo de atividade pode aumentar a motivação para a sua aprendizagem, envolve ativa e conscientemente o aluno na atividade, melhora a avaliação pessoal de compreensão das informações recebidas e alcança resultados de aprendizagem (Craciun, 2010). Através deste método desenvolvemos competências e habilidades como responsabilidade e liderança na aprendizagem, aprendizagem/ensino entre pares, trabalho em grupo, confiança, entre outras.

Antes de concluir, gostaria de mencionar que a motivação dos alunos é importante, mas a dos professores é igualmente importante. Segundo Pereira (2013, p. 480), “[u]m professor motivado tem mais facilidade em proporcionar aos alunos um ensino de qualidade”. Neste momento, existem muitos professores desmotivados, por diversos motivos que temos acompanhado, ao longo dos últimos meses, através dos órgãos de comunicação social, cansados e desgastados fisicamente e emocionalmente. Isto não é nada bom para a melhoria das condições do ensino em geral e, em particular, no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem dos alunos. Cada vez existem menos professores para a quantidade de escolas que estão em atividade. Na minha opinião, todos nós enquanto sociedade somos culpados desta situação.

Por fim, gostaria de referir que enquanto atores educativos estamos todos a preparar alunos para um futuro desconhecido, ou seja, para práticas profissionais que ainda não se conhecem. Neste sentido, é fundamental inovar, pensar um pouco mais à frente, “fora da caixa” e reinventar a forma como se desempenha a nossa função. Atualmente, a “autoridade do conhecimento” afastou-se do professor e aproximou-se bastante do aluno. É da responsabilidade do professor incentivar, motivar e potenciar o envolvimento do aluno nas suas aprendizagens, responsabilizando-o pelos seus resultados (European Commission, 2020).

Susana Duarte

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